sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

LAMÚRIA ABISSAL - Passagem Para o Além Abismo


Ano: 2016
Tipo: Extended Play (EP)
Selo: Cvlminis (Rigorism Productions)
Nacional


Tracklist:

1. Estupor de Viver
2. Orquídea Sangrenta
3. Lavrando Defuntos
4. Solidão
5. Eternal Beauty of Trees (Uaral cover)


Banda:


Reverand Despair - Vocais
Pale - Todos os instrumentos


Ficha Técnica:


Contatos:

Site Oficial:
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Youtube:
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Bandcamp:
Assessoria:

E-mail:

Texto: Marcos Garcia


Ainda nos anos 90, quando a Second Wave of Black Metal começou a deixar as profundezas dos porões do underground de Oslo, Bergen, Copenhagen, Atenas e outras cidades, vários subgêneros do mesmo foram surgindo. E talvez o mais underground deles todos seja o Depressive Black Metal. Poucos se aventuram por ele, e até mesmo são raras as bandas que trilham seus caminhos. No Brasil, há alguns representantes, sendo um dos mais conhecidos o LAMÚRIA ABISSAL, do Rio de Janeiro. E eis que temos em mãos o EP “Passagem Para o Além Abismo”, de 2016.

Para início de conversa, o Depressive Black Metal é focado em ambientações soturnas, com tempos lentos e muitas vezes, o uso de teclados reforça a aura melancólica e introspectiva do gênero. Nisso, o dueto sabe usar bem esses elementos, mas indo além, pois usam um trabalho bem feito de guitarras, baixo e bateria dão o peso necessário, e bons contrastes entre vocais rasgados e outros mais agonizantes. Percebe-se claramente que a banda evoluiu em relação aos seus primeiros trabalhos, ficando mais diversificada em termos de variações de ritmo, inclusive porque algumas de suas canções são bem grandes. E digamos de passagem: esses dois entendem muito bem do que estão fazendo.

Em termos de sonoridade, o grupo conseguiu associar uma boa dose de clareza à sujeira crua que é uma das características do Depressive Black Metal. Tudo pode ser compreendido sem grandes esforços, os timbres instrumentais são muito bons, e tudo está em seu devido lugar.

Com letras em português e muita disposição, o LAMÚRIA ABISSAL é uma banda bem articulada e sabe usar de sua experiência para pegar o gênero e expandir fronteiras. Mesmo os fãs puritanos de Black Metal terão que tirar o chapéu para o trabalho deles, pois como arranjam bem suas músicas.

E se preparem, pois as cinco canções de “Passagem Para o Além Abismo” são autênticas viagens por um mundo obscuro, melancólico e agressivo. O peso opressivo de “Estupor de Viver” é suave e introspectivo, permeado por vocais agonizantes bem colocados. Em “Orquídea Sangrenta”, temos o contraste entre vocais rasgados e riffs agressivos com teclados fúnebres; e a canção em si tem um jeito simples, mas envolvente. Um pouco mais voltada ao Black Metal tradicional da SWOBM é “Lavrando Defuntos”, com suas boas mudanças de ritmo. Ainda com muitas variações rítmicas (reparem no uso dos bumbos duplos) e ótimas guitarras, “Solidão” retoma o lado mais introspectivo e denso da música da dupla (e pode se sentir até uns toques melodiosos vindos do Heavy Metal Tracional em algumas partes). E “Eternal Beauty of Trees” é uma versão da banda para uma canção do extinto grupo chileno de Folk/Doom Metal UARAL, que está soando totalmente melancólica, apesar de várias partes mais agressivas.

Se eles já mostravam esse nível em 2016, mal posso esperar para apreciar “Eterno Outono da Alma”, disco mais recente deles.

Nota: 89%

DAMAGEWAR - Dead Skin Devourer



Ano: 2018
Tipo: Extended Play (EP)
Selo: Independente
Nacional


Tracklist:

1. Dead Skin Devourer
2. God of Chaos
3. Necrozumbí


Banda:


JP Carvalho - Vocais
David Fulci - Guitarras
Maurício Cliff - Baixo


Ficha Técnica:

Damagewar - Produção
Rogério Oliveira - Mixagem, masterização
Kléber Hora - Guitarra solo em “God of Chaos”
Diego Nogueira Sábio - Vocais em “Necrozumbí”


Contatos:

Site Oficial:
Twitter:
Instagram:
Bandcamp:
Assessoria: http://www.metalmedia.com.br/damagewar/ (Metal Media)


Texto: Marcos Garcia


Alguns nomes pequenos dentro do cenário underground são, muitas vezes, mais promissores que gigantes cuja energia e vontade de fazer música em alto nível parece ter se apagado. Isso vem da energia da juventude de uma banda, justamente em um momento em que a renovação se faz necessária. E um nome muito bom dessa nova geração é o DAMAGEWAR, trio de São Paulo (SP) que acaba de liberar seu segundo trabalho, um EP digital chamado “Dead Skin Devourer”.

Rotular o trabalho da banda meramente como Death/Thrash Metal é ser muito simplista. Há muito da vibração HC, toques de Groove e mesmo algumas mínimas influências modernas aqui e ali. E sim, eles têm muita personalidade na abordagem de seu estilo, uma energia brutal e envolvente, com bons arranjos e uma música agressiva até os dentes, mas bem construída em termos de harmonias.

A banda fez uma boa produção em termos sonoros. Tudo soa bruto e opressivo, seja nos momentos mais velozes ou nos mais cadenciados, mas sempre com muito peso e também com enorme clareza. E como são ouvidos todos os detalhes, percebe-se que a banda escolheu uma timbragem muito boa, onde conseguem soar pesados, mas sem que o ouvinte perca a noção do que está sendo tocado.

O DAMAGEWAR veio para ser o pesadelo de muitos puritanos de várias vertentes, já que a única coisa que a banda respeita é a própria criatividade. Mesmo se classificando como Death/Thrash Metal e sendo um murro nos tímpanos de tanta agressividade, há influências diferenciadas em muitos pontos, logo, preparem-se.

“Dead Skin Devourer” é uma voadora direta e seca nos ouvidos, brutal e com aquelas levadas Thrashers das guitarras que empolgam, mas com alguns momentos mais extremos nos blast beats diretamente do Death Metal. Em “God of Chaos”, a velocidade dos andamentos cai um pouco, privilegiando o trabalho esmagador de baixo e bateria, além de um solo muito bem colocado. E o pesadelo que beira o Thrash/Crossover “Necrozumbí” é cheia de vocais ótimos, com timbres variados.

A banda faz um bom trabalho, mas é claro que eles podem ir ainda mais longe musicalmente. E o EP pode ser baixado de graça aqui: https://www.facebook.com/damagewar/photos/a.399942560146815.1073741828.380262282114843/989078147899917/?type=3

Por agora, os becos da Rua Augusta agradecem, pois o DAMAGEWAR é a mais nova gangue de sujeitos mau encarados do underground paulista!

Nota: 87%

ORPHANED LAND - Unsung Prophets & Dead Meassiahs


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Selo: Century Media Records
Importado


Tracklist:

1. The Cave
2. We Do Not Resist
3. In Propaganda
4. All Knowing Eye
5. Yedidi
6. Chains Fall to Gravity
7. Like Orpheus
8. Poets of Prophetic Messianism
9. Left Behind
10. My Brother’s Keeper
11. Take My Hand
12. Only the Dead Have Seen the End of the War
13. The Manifest - Epilogue


Banda:


Kobi Farhi - Vocais
Chen Balbus - Guitarras, saz
Idan Amsalem - Guitarras, bouzouki
Uri Zelcha - Baixo
Matan Shmuely - Bateria, percussão


Ficha Técnica:

Jens Bogren - Mixagem, masterização
Metastazis - Artwork
Shlomit Levi - Vocais femininos
Steve Hackett - Guitarras em “Chains Fall to Gravity”
Hansi Kürsch - Vocais em “Like Orpheus”
Tomas Lindberg - Masterização, vocais em “Only the Dead Have Seen the End of War”


Contatos:

Bandcamp:

E-mail:

Texto: Marcos Garcia

Platão

Antes de qualquer coisa, é necessário que o leitor tenha paciência. Esta não é uma resenha comum, e é preciso uma longa introdução.

Em termos de ciência e história, não se pode negar o quanto o filósofo grego Platão (428/427 A.C. - 348/347 A.C.) é importante para a formação e canonização de todo o conhecimento que temos nos dias de hoje. E um de seus maiores legados ao homem é a Alegoria da Caverna, e pode ser encontrada em “A República”. Nessa antiga experiência mental, Platão demonstra que uma pessoa criada nas trevas da ignorância e induzida constantemente ao medo (dentro da caverna), se um dia confronta aquilo que o atemoriza (uma nova realidade e a chegada do conhecimento), sai ignorância e chega ao conhecimento (fora da caverna), mas sofre conflitos e dúvidas durante o processo (os olhos doem pela luz). E se este tenta voltar e ajudar os companheiros de cativeiro na ignorância (aqueles que nasceram e foram criados nas trevas da caverna juntamente com o que fora libertado), estes tenderão a não reconhecer o triste estado em que se encontram e culparão o conhecimento (luz) por aqueles efeitos nocivos que veem no liberto (agora ele mal pode enxergar nas trevas), e assim, lutarão para permanecer na ignorância e matarão aqueles que tentam livrá-los das ilusões em que vivem.

Sócrates
Muitos atribuem a Alegoria da Caverna à experiência de Platão ter testemunhado o próprio mestre, Sócrates (outro que muito contribuiu para tudo que temos em termos de ciências nos dias de hoje), o grande filósofo grego que trouxe o conhecimento a tantos, que livrou tantos da escuridão da caverna, teve contra si os ignorantes.

Sócrates foi acusado 3 crimes:

1. Não acreditar nos costumes e nos deuses gregos (acusação que visa manter status quo religioso e o conservadorismo tradicionalista);

2. Unir-se a deuses malignos que gostam de destruir as cidades (mais uma permeada por conteúdo religioso e poder político temporal);

3. Corromper jovens com suas idéias (nesta, é clara a manutenção do status quo da ignorância, pois é nos jovens esclarecidos que reside a esperança de um mundo melhor no futuro).

Os acusadores: Ânito (que faz parte da classe dos políticos, por ser rico e representar os interesses dos comerciantes e industriais, além de ser poderoso e influente em Atenas), Meleto (poeta trágico desconhecido, foi o acusador oficial, embora nada exigisse que ele, como acusador oficial, fosse o mais respeitável, hábil ou temível, mas somente aquele que assinava a acusação, representava a classe dos poetas e adivinhos) e Lícon (retórico obscuro e o seu nome teve pouca importância e autoridade no decorrer da condenação de Sócrates, e representava a classe dos oradores e professores de retórica). Por trás de cada um, interesses pessoais escusos na condenação de Sócrates. Dado o veredicto de culpado (exílio ou morte), o sábio mestre, por sua vez, preferiu a morte a ser exilado com a língua cortada (o que seria feito para que ele não mais seduzir as pessoas com suas ideais), bebendo cicuta diante de seus discípulos e amigos.

Dr. Martin Luther King
Alguns poucos queriam sua morte por interesses pessoais, o povo alienado segue estes pedidos como se fossem ordens e clamam por sangue, e o sábio mestre, portador da luz do conhecimento, morre. Uma Luz se apaga...

Se pararem para pensar, já não vimos esse mesmo tipo de coisa ocorrendo na história da humanidade desde que os primeiros relatos passaram a ser escritos?
 
Um exemplo: para aqueles que leram alguma vez na vida os livros de Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, contidos na Bíblia, quantas e quantas não foram os momentos o povo de Israel, em sua jornada do Egito (de onde haviam sido libertos) até a Terra Prometida, não reclamou se levantou contra seu líder, Moisés, querendo voltar à servidão de onde haviam saído? Ou seja, quantas vezes quiseram retornar para as trevas da ignorância servil? A liberdade plena e o conhecimento demandam esforços, exigem que saiamos das nossas zonas de conforto todos os dias.

Nesse sentido, se pode compreender os motivos que levaram homens como Mahatma Ghandi, Dr. Martin Luther King, o Jesus histórico, Muhammad Anwar el-Sadat, John F. Kennedy, Yitzhak Rabin, e mesmo Antônio Conselheiro e tantos outros, à morte: somos incapazes de sair das trevas da ignorância e abraçar o conhecimento, e dessa forma, criarmos um mundo melhor e pacífico. Podemos dizer que eles são Profetas não ovacionados pelo povo e Messias mortos pela nossa omissão.

Ainda mais profundamente, reparem em quanto ódio é visto nas notícias internacionais, nacionais e mesmo nas redes sociais, na resistência belicosa contra o conhecimento. Preferimos nos alienar na escuridão da ignorância na caverna à encarar a Luz do conhecimento que ilumina e aquece o mundo real.

Mahatma Ghandi
Outros excelentes exemplos em termos de Brasil são os pedidos de muitos por uma novas intervenção militar após o fracasso dos últimos governos democratas, a ausência de batucadas em panelas contra os desmandos do atual governo federal, e mesmo o ódio contra a comunidade LGBTQ+, contra os afrodescendentes, mulheres feministas e outros... Culpamos uns aos outros de crimes e nos odiamos mutuamente, muitas vezes sem motivos e sem que compreendamos as raízes desse mal. Odiamos quem tenta nos conscientizar que existem possibilidades melhores.

E detalhe: NÓS NÃO RESISTIMOS AO ÓDIO, não fazemos oposição real à ignorância, apenas nos omitimos ou assimilamos os sentimentos, travestindo-o como algo nobre... E não nos opondo, nos tornamos cúmplices de tanto sangue derramado... Preferimos e falar (bem ou mal) de celebridades insossas do mundo moderno pelas redes sociais a entender quem foram Sócrates ou Platão e o que eles nos legaram; sabemos mais de reality shows e seus participantes do que sobre ciências e tristes fatos que ocorrem nesse momento pelo mundo e demandam nossa atenção!

Ainda estamos presos à caverna e às trevas!

A Alegoria da Caverna, no fundo, tem por idéia demonstrar “o efeito da educação e a falta da mesma em nossa natureza”, o quanto ela é uma ferramenta preciosa. Mas observando pelo lado discorrido até agora, percebe-se que Platão não só se mostrou um filósofo excepcional, mas sua figura ganha contornos de um profeta, e pararmos para refletir que a Alegoria da Caverna foi escrita há mais de 2500 anos, mas mostra a atualidade do mundo, é uma profecia para nos prevenir do mal!

E esta longa introdução é para que o leitor compreenda um pouco do que é o conceito que permeia “Unsung Prophets & Dead Messiahs”, sexto e mais recente disco do quinteto Israelita ORPHANED LAND.

Muhammad
Anwar el-Sadat
Para os fãs de longa data, fica a pergunta: como a banda está soando agora, após a saída do guitarrista Yossi Sassi, um dos membros fundadores, em 2014?

Sendo o mais direto possível: muito pouca coisa mudou musicalmente.

A banda continua fazendo o estilo que eles criaram nos anos 90, o Oriental Metal, que nada mais é que a fusão do Metal com influências de Death Metal, Doom Metal e mesmo outros gêneros do Metal com melodias e a estética de vários ritmos regionais do Oriente Médio. O que é notável é que a banda retomou algumas influências de “Mabool” e “The Never Ending Way of ORwarriOR”, como o uso de vocais mais agressivos e algumas melodias mais secas, mas mantendo as orquestrações grandiosas, vocais femininos, corais operísticos e estética elegante de “All is One”. Mas ao mesmo tempo, existem arranjos musicais mais dinâmicos e alguns momentos melancólicos e/ou soturnos, justamente para criar uma ambientação densa e perfeita para o trabalho lírico do disco.

Construir uma sonoridade para “Unsung Prophets & Dead Messiahs” não foi um trabalho simples, como se repara em repetidas audições. Existem múltiplas camadas que necessitaram ser encaixadas perfeitamente, e muitos instrumentos diferentes a serem colocados lado a lado, sem se sobreporem. A produção é do próprio quinteto, tendo o gênio Jens Bogren na mixagem e Tomas Lindgren na masterização. Seja nos momentos mais pesados e intensos, nos mais agressivos ou nos mais introspectivos e suaves, tudo ficou perfeito, equilibrando limpeza e agressividade, peso e melodias. Tudo foi levado em consideração, meditado e então feito.

Yitzhak Rabin
Outro ponto a ser ressaltado é a arte gráfica. Usando tons mais claros que o costumeiro no gênero, a ambientação visual cria uma atmosfera perfeita para as canções, sendo que a capa deixa claro todo o contexto lírico do quinteto. Fica clara a referência que a caverna é mantida por poderes temporais, envolvendo todo o mundo. Mas que a sabedoria e o conhecimento são o punho da resistência, da libertação.

Musicalmente mais denso e introspectivo que “All is One” (que tinha uma ambientação mais acessível), “Unsung Prophets & Dead Messiahs” é complexo, mas não é tão difícil de ser assimilado em poucas audições. O ORPHANED LAND continua sendo ousado e criativo dentro do estilo que criou para si, sabendo fazer belos contrastes musicais. Curiosamente, existem vários “point blanks” no disco (aqueles os famosos bips da censura que surgem em músicas e programas de TV quando alguém fala um palavrão), em várias canções, que são propositais e ali estão em uma forma de autocensura da banda, para criar uma idéia de quem nem tudo pode ser dito, pois poderia destruir a caverna de muitos. Além disso, a mensagem da banda se tornou universal, pois ela fala a todos nós com clareza enorme.

Falar sobre cada canção de “Unsung Prophets & Dead Messiahs” se faz necessário. A obra como um todo merece isso, pois cada uma delas é uma jóia preciosa.

O disco abre com a longa e trabalhada “The Cave”, onde existem contrastes de momentos mais amenos e melancólicos com outros mais agressivos (mostrando um ótimo trabalho dos vocais, guitarras muito boas e corais bem encaixados), e se percebem várias citações, entre eles, uma de Platão, que é “Podemos facilmente perdoar uma criança que está com medo da escuridão; a real tragédia da vida é quando os homens estão com medo da luz”, já que a letra lida com a Alegoria da Caverna em si.

Segue-se com os vocais extremados e clima harmonioso de “We Do Not Resist” (os timbres vocais variam bastante, de um gutural inteligível para limpas vozes envolventes), e fica evidente o teor lírico (onde fica claro que preferimos dar atenção a fofocas e celebridades descartáveis todos os dias que saber da verdade triste de muitos, como as 70000 crianças que são seqüestradas todos os anos na Índia).

Profeta Jeremias
A beleza orquestral que envolve as melodias orientais de “In Propaganda” (que belos arranjos de guitarras) toma nossos ouvidos e nos embala, enquanto mostra uma das correntes modernas que nos prende à caverna e suas ilusões: a propaganda midiática, que nos afasta da luz e nos acorrenta.

Em “All Knowing Eye”, tem-se uma música mais amena e melancólica com muitas partes acústicas (embora surja um crescendo de metade dela até o final, todo com instrumentos elétricos), além de belíssimos vocais femininos contrastando com a voz limpa de Kobi (e que belos solos de guitarra). A música é uma lamentação (bem semelhante ao linguajar triste e melancólico usado pelo profeta Yirmeyahu, ou Jeremias, em seus oráculos) pelos profetas e messias que foram mortos por tentaram nos ajudar.

Totalmente feita em ritmos regionais é “Yedidi”, que apesar de ser mais simples, mostra um trabalho refinado de baixo e bateria, sendo que esta é uma adaptação de uma composição por Judah Halevi (1075 -1141), poeta espanhol de origem hebraica (celebrado como um dos grandes poetas hebreus tanto por seus poemas religiosos e/ou seculares) e que foi morto pouco depois de chegar à Terra Santa, ao antigo Reino Latino de Jerusalém (culturalmente, se diz que ele foi atropelado por um cavaleiro árabe enquanto pronunciava uma sionida às portas da cidade).

Profeta Isaías
A bela e melodiosa “Chains Fall to Gravity” vem em seguida com certo toque de melancolia e mesmo alguns toques de Rock Progressivo e orquestrações sinfônicas para adornar as melodias orientais, e de quebra, a participação de Steve Hackett, guitarrista do GENESIS, nos solos (retribuindo a participação de Kobi em seu último disco solo, “The Night Siren”). Nela, se percebe o processo de quem sai da caverna e é iluminado, e em como essa pessoa se torna um novo Profeta/Messias para a humanidade, e certos trechos parecem identificados com a linguagem profética de Yešayahu (o profeta Isaías).

Primeiro Single de promoção, “Like Orpheus” é uma das canções mais acessíveis e belas do álbum, com linhas melódicas mais simples de serem entendidas, além de um trabalho de primeira de Chen e Idan nos riffs (além da presença especial de Hansi Kürsch, do BLIND GUARDIAN, dando um toque de beleza extra e classe à canção com sua voz). Orpheus (ou Orfeu) é um personagem mitológico cuja música era capaz de encantar monstros e aliviar os tormentos dos que habitavam no mundo dos mortos, onde ele foi para tentar recuperar sua amada esposa, Eurídice. Deixo ao leitor a tarefa de ler sobre este mito.

A bela e curta “Poets of Prophetic Messianism” se segue com muitas harmonias orientais, belos vocais femininos, e cuja letra é uma adaptação de trechos de “A República”, com a icônica citação “Anyone who holds a true opinion without understanding is like a blind man on the right road”, e em uma tradução livre, seria algo como “não seria quem mantém uma opinião verdadeira sem o conhecimento como um cego na estrada correta?A tarefa do Profeta Messiânico é desfazer a cegueira da ignorância, logo, quantos Profetas/Messias já não foram mortos por isso?

Misturando peso, sólidas melodias, corais e partes orquestradas, vem “Left Behind”, uma canção onda Uria e Matan criam uma base rítmica bem sólida e com boa técnica. A letra versa sobre os que permanecem na caverna, mas que desejam se libertar de sua condição de ignorância, da condição de medo e tormentos. O deslumbre do testemunho do Profeta/Messias os faz ansiar por uma nova vida.

Janusz Korczak
Tons orientais progressivos se fundem a passagens harmônicas densas e com declamação quase sussurrada das letras em “My Brother’s Keeper”. A letra fala do sentimento do profeta que o leva a voltar e tentar ajudar os outros. E “Não existo para ser amado ou admirado, mas para amar e agir. Não é tarefa dos que estão à minha volta me amar. Pelo contrário, é minha tarefa ser preocupado com o mundo, como o homem”, citação de Janusz Korczak (22/07/ 1878 ou 1879 - 05 ou 06/08/1942), famoso médico e pedagogo Polonês de origem hebraica, precursor das idéias de direitos das crianças e do reconhecimento da igualdade plena das crianças que conhecemos nas Escolas Democráticas dos dias de hoje. Foi assassinado juntamente com seus educandos no campo de concentração de Treblinka. Poderia ter se salvado fugindo, condição que lhe fora dada no mínimo duas vezes, mas não quis abandonar as crianças e funcionários de seu orfanato.

Mostrando melodias orientais mixadas a partes orquestrais e com belas guitarras, vem a longa e sinuosa “Take My Hand”, uma das canções mais empolgantes. Aqui, é narrada pregação do Profeta/Messias que visa arrancar as pessoas da escuridão, onde ele clama para que segurem sua mão e ele possa guiá-los para um mundo de luz (conhecimento).

George Santayana
Com uma pegada que mixa melodias orientais, partes orquestrais e uma boa dose de brutalidade, vem “Only the Dead Have Seen the End of the War”, com boas mudanças de ritmo e vocais guturais bem agressivos. A participação especial de Tomas Lindberg, do AT THE GATES, mostra toda a vocação mais extrema da canção. A frase que inspira o título, “apenas os mortos viram o fim da guerra”, é erroneamente atribuída a Platão, sendo do filósofo e poeta espanhol George Santayana (16/12/1863 - 26/09/1952), quer por não ser casado ou ter sido visto em relacionamentos heterossexuais, e por sua amizade com bissexuais e homossexuais assumidos, levantou suspeitas de muito sobre sua sexualidade (vejam que tal fato se dá no final da década de 40 do século passado, e era um enorme tabu). Aqui, a reação da turba contra o Profeta/Messias, acreditando que as tribulações causadas pela busca da liberdade foram causadas por eles, que anseiam pela ignorância. Eles o acusam e enfim, o assassinam, para que ele não mais possa mais “enganá-los”. Percebe-se que em certos pontos, a linguagem que foi usada nas letras remete ao mesmo tipo de linguagem que pode ser encontrado no livro de Salmos.

E fechando essa obra de arte em formato musical, “The Manifest - Epilogue”, uma canção densa e que possui citações do Torá (“você não é obrigado a completar o trabalho, mas também não está livre para desistir dele”) e “canções de bravura serão sempre canções novas, sempre”, que é de Víctor Jara (28/09/1932 - 16/09/1973), um professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, e músico que causou uma revolução cultural em seu país natal. Ele foi preso, torturado (suas mãos haviam sido esmagadas por coronhas de armas) e executado depois do golpe militar do Chile (sim, o golpe dado por Pinochet), sendo seu corpo jogado em uma rua de uma favela em Santiago, a Estrada Sul, na parte posterior de um cemitério, junto com outros três cadáveres. Possui 44 ferimentos de balas e vários ossos quebrados. Seu crime: a conscientização das camadas mais pobres da sociedade chilena, pois Víctor era um ativista político de esquerda. Aqui, se percebe que a luta dos Profetas e Messias não deve parar por nada, e que mesmo que demore milênios, as trevas cessarão um dia. Nossas esperanças de um mundo melhor não podem morrer conosco, mas devem seguir adiante, como herança para as futuras gerações.

Víctor Jara

Se os leitores não perceberam, cada uma das figuras históricas citadas na resenha são Profetas muitas vezes anônimos e Messias mortos pela sede de poder, riqueza e outros que desejam que os homens permaneçam na cegueira escura da caverna. Ou mesmo dos próprios ignorantes que desejavam permanecer em sua zona de conforto, pois toda mudança em direção ao conhecimento demanda esforços e sacrifícios.

Como a ida do Egito até a Terra Prometida, atravessando um deserto por longos anos...

Como a mudança de comportamento para com as crianças, entendendo que elas são seres humanos...

Como a oposição a um tirano sangrento, pois o medo escraviza...

Como a aceitar as pessoas como boas, independente de etnia, sexualidade ou outros, pois todos somos humanos...

Como se opor aos interesses da indústria armamentista, e fazer cessar os rios de sangue que inundam o mundo...

Como buscar a compreensão entre inimigos históricos, que muitas vezes nem sabem mais os motivos de sua luta...

Como promover a Luz do conhecimento que dissipa a escuridão da ignorância...

Jesus de Nazaré

A mensagem de “Unsung Prophets & Dead Messiahs” é clara, e apesar do teor denso e melancólico, é um chamado para todos. A esperança ainda brilha... Os Profetas e Messias iluminados pelo conhecimento ainda nascem entre nós. Basta ouvi-los em seus sermões, e a ignorância e escravidão imposta por mídia, políticos, religiões e outros irão cessar. Abrace sua liberdade, pois ela é sua.

Ainda existe existe uma versão dupla Deluxe, com 8 músicas bônus vindas do Boxed Set Orphaned Land & Friends 25th Anniversary”.

No mais, o ORPHANED LAND lança mais um disco que é forte candidato a se tornar um clássico do Metal no futuro, e já é um dos grandes discos do ano. Talvez seja um dos grandes discos dos últimos 20 ou 30 anos. 

“Aquele que desejar mudar o mundo deve começar mudando o sistema de educação” (Janusz Korczak).

“O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os observa sem fazer nada” (Albert Einstein).

Nota: 100+%


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

SUUM - Buried Into the Grave


Ano: 2018
Tipo: Full Length
Selo: Endless Winter   
Importado


Tracklist:

1. Tower of Oblivion
2. Black Mist
3. Buried Into the Grave
4. Last Sacrifice
5. Seeds of Decay
6. The Woods Are Waiting
7. Shadows Haunt the Night


Banda:


Mark Wolf - Vocais
Painkiller - Guitarras
Marcas - Baixo
Rick - Bateria


Ficha Técnica:

Suum - Produção
Antonio Painkiller - Artwork


Contatos:

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Instagram:
Assessoria:


Texto: Marcos Garcia


Cada subestilo de Metal acaba tendo outras muitas subdivisões. Esse fenômeno ocorre devido à criatividade de muitas bandas, que sempre preferem trazer algo de novo para fugir do ponto comum e serem vistos apenas como mais um nome em meio a tantos. E nesse momento, o Doom Metal anda bastante evidente, especialmente quando se mistura ao Stoner Rock. Mas existem puritanos que gostam de fazer algo mais voltado às raízes dos gêneros em que estão inseridos. E esse é o caso do quarteto italiano SUUM. Uma audição em “Buried Into the Grave” e entenderão minhas palavras.

A banda segue aquele som duro, cru e pesado, cheio de andamentos lentos que bandas como WITCHFINDER GENERAL, SAINT VITUS, TROUBLE, PENTAGRAM e THE OBSESSED, com timbres musicais bem abrasivos. As melodias não são muito complexas, o que permite a fácil assimilação do trabalho deles. Mas ao mesmo tempo, eles possuem coragem, pois ter identidade musical e com essa dose de energia é algo incomum nos dias de hoje, em que fazer Doom Metal sem misturas é algo difícil de ouvir por aí.

Sim, “Buried Into the Grave” é um disco muito bom.

Em termos de qualidade de som, “Buried Into the Grave” é realmente um disco azedo até a alma, mostrando aqueles timbres crus e abrasivos de seus antecessores, mas sempre tendo preocupação com o nível de clareza sonora, para se fazerem entender, e conseguiram um bom resultado. Tudo pode ser compreendido e assimilado sem grandes dificuldades. Até a arte do disco, bem simples, reflete aquele espírito soturno do Doom Metal.

Apesar de ser uma banda jovem (tem um pouco mais de um ano de formação), o quarteto mostra vocação para fazer Doom Metal. O jeito deles ainda mostra a necessidade de amadurecer um pouco mais, mas mesmo assim, já chegam com um disco de nível muito bom. As canções estão bem arranjadas, mostrando peso e boas melodias sempre, junto com arranjos bem pensados.

Espontâneo e denso, “Buried Into the Grave” tem sete canções muito boas. Mas o peso “sabbathico” dos riffs de “Tower of Oblivion” (até parece que o próprio Tony Iommi afinou essa guitarra), o “approach” opressivo que se ouve em “Black Mist” (baixo e bateria mostram uma solidez ímpar na base rítmica), o azedume intenso e cadenciado de “Buried Into the Grave” (os vocais ora melodiosos, ora mais agressivos em seus timbres normais, são muito bons e se destacam bastante nesta canção), e a lenta procissão fúnebre “Shadows Haunt the Night” (com seus arranjos espontâneos e toda aquela ambientação crua e soturna do estilo).

Apesar de novato, o SUUM tem muito a oferecer aos fãs de Doom Metal, sem sombra de dúvidas, e “Buried Into the Grave” vai agradar os fãs do gênero em cheio!

Ouça e sinta-se seduzido pela música do quarteto!

Nota: 84%

ARMORED DAWN - Barbarians in Black



Ano: 2018
Tipo: Full Length
Importado


Tracklist:

1. Beware of the Dragon
2. Bloodstone
3. Men of Odin
4. Chance to Live Again
5. Unbreakable
6. Eyes Behind The Crow
7. Sail Away
8. Gods of Metal
9. Survivor
10. Barbarians in Black


Banda:


Eduardo Parras - Vocais
Tiago de Moura - Guitarras
Timo Kaarkoski - Guitarras
Rafael Agostino - Teclados
Fernando Giovannetti - Baixo
Rodrigo Oliveira - Bateria


Ficha Técnica:

Kato Khandwala - Produção
Bruno Agra - Produção
Sebastian “Seeb” Levermann - Mixagem, masterização
Ted Jensen - Masterização
J. Duarte - Artwork


Contatos:

Bandcamp:
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Texto: Marcos Garcia


Cada vez mais, as bandas brasileiras estão buscando novos ares fora do Brasil, em uma tentativa de alcançarem um público maior. Muitos tentam e esbarram com as dificuldades inerentes ao underground, enquanto outros parecem predestinados a grandes coisas. Nesse último grupo, o sexteto paulista ARMORED DAWN tem dado provas que esse será o caminho deles, já que “Barbarians in Black” é um disco mais evoluído que seu antecessor (“Power of Warrior”, de 2016), além de estar sendo lançado na Europa pela AFM Records.

Basicamente, o grupo faz algo que transita entre o Metal tradicional e o Power Metal épico. Ou seja, eles possuem uma pegada técnica e bem trabalhada, com muita ênfase nos riffs pesados das guitarras, ótimo trabalho da base rítmica, teclados que se encaixam perfeitamente nas canções e criam uma ambientação épica essencial, além de vocais excelentes. Fundido esses elementos, embora esteja longa de ser algo inovador, mostra uma banda com muita personalidade, que sabe ter diversidade rítmica e doses homeopáticas de peso e melodias. É ouvir e gostar!

A sonoridade de “Barbarians in Black” é de alto nível. Os timbres são agressivos e pesados, e transparecem as melodias claramente foi sábia, e ao mesmo tempo, a produção conseguiu dar equilíbrio em relação ao peso, agressividade, melodia e clareza que o grupo precisa. Tanto quando o foco é o peso ou quando tocam de maneira mais suave, tudo soa como deve sem problemas para nossa compreensão. E sem mencionar o belo trabalho gráfico da capa.

Mesmo longe de ser uma banda que veio para criar um subgênero novo em termos de Metal, o ARMORED DAWN veio para mostrar que tem espaço no cenário nacional (e mesmo no mundial), sabendo como dar dinâmica às suas canções, e como capricharam nos arranjos. O esmero impera em cada momento.

O capricho em “Barbarians in Black” é tamanho que não decepcionara seus velhos fãs e ainda conquistará novos. A dinâmica e pesada “Beware of the Dragon” e suas variações rítmicas (ótimo refrão, e baixo e bateria realmente estão ótimos), o peso agressivo de “Bloodstone”, a beleza das melodias de “Men of Odin” (que passagens fenomenais de teclados e ótimos riffs e solos de guitarras), a força melodiosa de “Unbreakable”, o trabalho de tempos mais cadenciados de “Eyes Behind The Crow” e suas melodias sólidas, as harmonias introspectivas e acessíveis de “Sail Away” (os vocais mostram ótimo trabalho, com tons que se alternam bastante e sem falar em um belo vocal feminino de fundo), o jeito mais simples e ganchudo de “Survivor”, e o jeitão elegante e agressivo de “Barbarians in Black” mostram uma banda que soube evoluir e agora pode conquistar fãs e mais fãs dentro e fora do Brasil.

O ARMORED DAWN está prontinho para ser grande!

Nota: 95%